Renda de comércio e serviços recua

2 jul

Renda de comércio e serviços recua

Trabalhadores do varejo, atacado e restaurantes não estão conseguindo recompor a inflação em seus salários, enquanto servidores se beneficiam com ganhos reais

O rendimento médio real (descontada a inflação) dos trabalhadores que atuam nos serviços de alimentação caiu 0,4% no trimestre móvel de março a maio, contra igual período de 2017, para R$ 1.437.

Essa foi a 45ª queda seguida nessa base de comparação anual de cada trimestre móvel, o que significa que a renda do setor cai desde setembro de 2014. Já os ganhos das pessoas empregadas no comércio atacadista e varejista recua desde agosto de 2017. Somente no trimestre finalizado em maio, os rendimentos diminuíram, em termos reais, 1,7%, a R$ 1.732.

Enquanto isso, os funcionários do setor público vêm obtendo reajustes acima da inflação desde novembro de 2016, mostram dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na última sexta-feira. De março a maio, a renda média dos servidores cresceu 3,8%, a R$ 3.224.

As atividades de serviços e de comércio empregam 67,7% da população ocupada, ao passo que o emprego público representa 12% da força de trabalho. O professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Leonardo Trevisan, avalia que os números indicam que a recessão acabou evidenciando as diferenças de rendimentos entre o setor público e privado do País.

“Há 11 milhões de funcionários públicos no Brasil [ou seja, 5,4% de uma população total de 207 milhões], cuja renda corresponde a 30% da massa salarial do País. […] Além disso, o rendimento médio mensal dos funcionários do poder Executivo chega a R$ 12 mil e, do Judiciário, a R$ 28 mil, enquanto a média dos trabalhadores do setor privado, é de R$ 1,2 mil”, diz o professor da PUC-SP. Para ele, o quadro aponta que a fraca recuperação da atividade não tem beneficiado todos da mesma forma.

Em termos de perspectiva, a tendência para os próximos meses, portanto, é ainda de uma recuperação real muito residual da renda da maioria dos trabalhadores, principalmente após a redução das estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano. O Banco Central (BC), por exemplo, cortou de 2,6% para 1,6% a sua projeção.

Apesar de obterem ganhos acima da inflação, os servidores não conseguem puxar, sozinhos, a recuperação total da renda e, portanto, do consumo. No trimestre encerrado em maio deste ano, o rendimento médio real habitual dos brasileiros ficou estável em R$ 2.187, em relação a iguais meses do ano passado.

Segundo Trevisan, as dificuldades de recomposição da inflação nos salários dos trabalhadores do comércio em geral e dos serviços de alimentação (bares e restaurantes) reflete o elevado nível de informalidade e desemprego no Brasil. No trimestre encerrado em maio, a taxa de desocupação ficou estável ante trimestre móvel de fevereiro, atingindo 13,2 milhões de pessoas.

Crescimento

Já na indústria, a renda real média avança há dez trimestres e, no período encerrado em maio de 2018, cresceu 3,1%, para R$ 2.197. Contudo, o professor da PUC-SP afirma que o aumento das incertezas no último mês e a aproximação das eleições indicam que os reajustes salariais dos trabalhadores da indústria podem ser menos favoráveis no segundo semestre, período onde ocorrem a maioria das negociações do setor. A tendência é que a renda continue avançando acima da inflação, porém em um ritmo menor que antes.

Sobre o desemprego, o professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Jefferson Nery do Prado, diz que as empresas ainda estão receosas de contratar, principalmente, pelo fato das agendas políticas dos pré-candidatos não estarem claras, dificultando planejamento de investimento no médio e longo prazo.

“Há um cenário político instável. Há muitos pré-candidatos com propostas difusas”, comenta o professor do Mackenzie. “Então, por mais que o governo esteja fazendo medidas pontuais para tentar aumentar o nível de renda da população, como a liberação do FGTS , a vigilância em cima dos bancos para deixar o crédito mais barato, as incertezas sobre o futuro acabam impedindo que o cenário econômico melhore e comece a reagir”, complementa Prado.

Para ele, a retomada da renda e do emprego só começará a registrar números mais favoráveis a partir de uma maior definição do cenário político, o que significa que a situação de baixo dinamismo no mercado de trabalho possa se estender até o final deste ano.

Por: Paula Salati

Fonte: DCI – SP